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Artigos · 03 de junho de 2026

O crime não é cortar a árvore — é não replantar

Nasci dentro da floresta e os livros diziam que cortar árvore é crime. Aprendi o contrário: o crime é não replantar. Um olhar sem romance sobre floresta, economia e desenvolvimento.

Eu nasci dentro da floresta. Numa cidade do interior de Santa Catarina, onde o cheiro de madeira fazia parte do ar. Meu pai foi trabalhador de serraria e motorista de caminhão florestal; minha mãe, costureira. A floresta não era paisagem nem metáfora — era o que pagava as contas em casa.

E, mesmo assim, os livros da escola me diziam que cortar árvore é crime.

A conta que não fecha

Levei anos para entender o tamanho do erro daquela frase. Hoje, olho em volta e vejo árvores em todos os lugares — e vejo que o crime não é cortá-las. O crime é não replantá-las.

A árvore plantada é um recurso renovável: corta-se, planta-se de novo, o ciclo recomeça. Demonizar o corte e esquecer o replantio é inverter a lógica. O problema nunca foi a motosserra; foi o tocão deixado sem futuro.

Sem corte, catástrofe

Há uma verdade desconfortável que o discurso fácil prefere não encarar: a madeira está em tudo. No papel, na construção, na embalagem, na energia. Se de repente não pudéssemos cortar árvores, o resultado não seria um planeta mais verde — seria uma catástrofe financeira mundial, e uma corrida por substitutos piores. Precisamos de floresta cortada tanto quanto precisamos de floresta em pé. A pergunta madura não é “cortar ou não cortar”; é “como cortar e garantir que volte”.

Sobre a floresta de uma espécie só

Sou honesto sobre o que isso significa. Eu gosto de floresta de uma espécie só? Do ponto de vista filosófico, não. A monocultura não tem a riqueza de uma floresta nativa, e seria desonesto fingir que tem.

Mas ela é necessária. Hoje, é a forma mais barata e eficiente de produzir fibra, madeira sólida, carvão e energia renovável — e nós precisamos de tudo isso. Romantizar a questão não planta uma árvore a mais nem tira uma pessoa da pobreza. A floresta plantada é uma escolha econômica consciente, não um pecado a ser escondido.

O romance atrapalha, a honestidade resolve

É aqui que natureza, economia e desenvolvimento social se encontram — e onde o ensino, muitas vezes, deixa a desejar. Aquela frase do livro escolar não é um detalhe; é o sintoma de uma educação que prefere o slogan ao entendimento. Ensina-se a condenar, não a gerir. E quem cresce condenando o corte não aprende a fazer a única coisa que de fato importa: replantar, manejar e fazer a floresta gerar renda e voltar.

Recurso renovável bem gerido é desenvolvimento. É emprego na serraria, é o caminhão rodando, é a renda que sustenta uma família no interior — a minha, inclusive. Tratar isso como crime é negar desenvolvimento a quem mais precisa dele, em nome de uma natureza imaginada que não existe no mundo real.

O que eu defendo

Não defendo cortar sem critério. Defendo o oposto do que o livro me ensinou: cortar com responsabilidade e, acima de tudo, replantar sempre. A floresta é um dos poucos ativos que se pode colher e devolver à terra ao mesmo tempo. O crime nunca foi o corte. O crime é deixar o chão sem a próxima árvore.

Essa é a lente com que eu olho cada ativo florestal — sem romance e sem demonização, com responsabilidade e com a conta fechando.

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